terça-feira, 12 de julho de 2016

O VERSO DA ELIPSE

O VERSO DA ELIPSE
- o que jaz subjacente às linhas da matéria -

Desavisados avisariam que da Morte somos nós inimigos. Porquanto não foge ao comum sentimento que a maldita não para de querer o nosso cadáver, frio e gélido, em seus estoques de pós-humanos abortados da matéria.
Pipocas de dúvidas quando se debruça razão.
Pois não há fatos que os olhos não possam dar uma segunda, terceira ou até quarta interpretação.
Possa, provavelmente, ser uma Mãe Morte que sente saudades profundas dos filhos vivos e, humildemente, quer os recolher dos braços da Vida. De fato, estamos mais tempo nos braços ocultos da Morte, ora prenascidos ora pós-mortos, do que nos quentes ventres da Vida.
Entre a certidão de óbito ser carimbada e datilografada a (elipse) de nascimento, estamos em outro lugar,... ou outros lugares.  No suspiro que se posta entre vida e morte, o conhecimento perambula livre. Mas é na lacuna que reside entre  morte e  vida que o mistério aborrece.
Conjecturas apenas. O próprio fim o é.  Zigzagueamos nos escuro fluido das incertezas. Ora alimentados por esperanças não empíricas, ora acostumados com a dor de uma suposta finitude.
Vamos, agora, cambalear para o zig. O zag só nos atordoa.
Um ébrio apaixonado pela existência aproxima-se, então, do seu discurso arranhado:
Os pedaços de átomos que constroem nossos esqueletos estavam espalhados pelos grãos de estrelas do universo. Sem percebermos a relatividade do tempo, as mãos da Gravidade e de outras Forças, que desconhecemos, nos atraía para o centro de nós mesmos. Cada partícula e pó de estrela, cometa e planeta desta galáxia desgarraram-se e, lentamente ao longo de milênios ou milionênios, reuniram-se pela primeira vez no útero de uma fêmea, invejada portadora de vida.
Um pequeno espaço no vácuo do corpo humano, milhões de seres de origens incognoscíveis se metamoforzeando em algo, finalmente, exprimível em palavras. Duas coisas se formaram. Talvez uma não pela primeira vez. Carne e Espírito.
Por óbvio que a Carne se esfacela pelos ventos do Tempo. Mas quanto ao Espírito, sempre existe uma versão mais otimista.
A Alma de uma pessoa, ao longo da sua vida, vai se derramando e enchendo o corpo de si. Cada vez mais, o receptáculo corporal vai sendo preenchido pela sua Essência primeira.
Quando o corpo já não aguenta mais nenhum líquido de Alma, a pessoa está plena de si. E por não caber mais em si mesma, o frasco se rompe. A Carne do frasco se espalha em partículas pelos cantos do planeta que habitamos. Já o líquido do Espírito nos oferta ao menos duas trajetórias possíveis:
Ou seremos derramados novamente em outro copo, não necessariamente de carne;
Ou nossa alma será espalhada em grãos pelo universo, à semelhança do receptáculo carnal. E nossa consciência se dissiparia eternamente num sono profundo...
A doce probabilidade quase matemática da não finitude, por momentos etéreos, sossega a noite dos incrédulos. Calcula-se a raiz quadrada do mistério e pode-se sonhar tranquilo com a sombra das coisas que não cabem nos tubos de ensaio.
Respira-se mais uma vez. O trigo plantado será ceifado e continuará em forma de pão.
Talvez a mão que nos embala no berço seja a mesma que nos carregará ao sepulcro. Aquela que hoje nos planta, (elipse) a mesma que nos colherá amanhã na Terra. Talvez o momento do óbito, de quando as luzes se apagam, seja somente um simples “fechar e abrir” de portas. E quem nos conduz ao próximo palco seja uma senhora gentil e afetuosa, que ainda não aprendemos a amar em todas as suas aparições.
Fato finado, visto e comentado de um só lado do rio, não poderia ser descritível por completo. Sempre faltarão as palavras dos que estão do outro lado. Palavras que dificilmente poderiam ser ditas pessoalmente. Intra rio não há ponte. Quem quiser passar ao outro lado será abruptamente mergulhado, mas ao chegar à margem, de lá sairá um distinto ser. Ninguém é o mesmo depois de atravessar as correntes caudalosas que tangenciam as margens habitáveis destes Estados nascionais e falecionais/antenascionais.
Entre o mundo dos Nascidos e o país dos Falecidos/Antenascidos, os recados costumam ser enviados à distância. Os que atravessam tais fronteiras, já não conservam a consciência de si, tampouco de sua mensagem.
Alguns olham para nossas margens e, atônitos com tamanha desgraça, lançam-se bravamente com o fito de nos salvar. Precisam nos dizer, entre coisas outras, que os buracos que cavamos poderão ser covas de gerações vindouras.
Mas os mensageiros, ao desembarcarem nesta estação, precisam lentamente recobrar a consciência. À medida que seu copo vai sendo preenchido de alma, o recém-nascido redescobre sua missão e pretende executá-la antes que o seja ele mesmo.
Comunicação. Janelas precisam ser abertas para o Sol entrar na casa.
De lá para cá, incógnita. De cá para lá, (...) os indoutos chamam “superstição”.
Uma oração, uma reza, uma dança, um passe, uma dose, um transe, uma transa, um mantra, sofrimento, festividades, reclusão e comunhão... formas e fórmulas de contato que são, aos viventes, sem explicação.
Antes do primeiro homem “descobrir” que a Terra era circular, já havia existido outros homens e mulheres, que, ao menos, imaginaram coisas ainda mais absurdas. Os que diziam coisas mirabolantes e ainda inexplicáveis eram entregues pelos viventes à Mãe Morte.
As fogueiras sempre serão uma variável que dificultará o solucionamento da equação que se põe entre os lados do rio.
Caminhamos a passos lentos, mas que a cada momento ficam mais e mais largos.
Vamos acreditar nas gerações.
Vamos confiar que nossas palavras continuarão a ser ouvidas ao longo dos tempos.
Vamos confiar que nossos filhos irão aplicar nossos ensinamentos.
Vamos crer que eles terão melhores ensinamentos aos seus próprios filhos.

Crer em um sentido,
Pensar em uma razão
 E imaginar (elipse do ponto final)