O VERSO DA ELIPSE
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o que jaz subjacente às linhas da matéria -
Desavisados
avisariam que da Morte somos nós inimigos. Porquanto não foge ao comum
sentimento que a maldita não para de querer o nosso cadáver, frio e gélido, em
seus estoques de pós-humanos abortados da matéria.
Pipocas de
dúvidas quando se debruça razão.
Pois não há
fatos que os olhos não possam dar uma segunda, terceira ou até quarta
interpretação.
Possa,
provavelmente, ser uma Mãe Morte que sente saudades profundas dos filhos vivos
e, humildemente, quer os recolher dos braços da Vida. De fato, estamos mais
tempo nos braços ocultos da Morte, ora prenascidos ora pós-mortos, do que nos
quentes ventres da Vida.
Entre a
certidão de óbito ser carimbada e datilografada a (elipse) de nascimento, estamos
em outro lugar,... ou outros lugares. No
suspiro que se posta entre vida e morte, o conhecimento perambula livre. Mas é
na lacuna que reside entre morte e vida que o mistério aborrece.
Conjecturas
apenas. O próprio fim o é. Zigzagueamos
nos escuro fluido das incertezas. Ora alimentados por esperanças não empíricas,
ora acostumados com a dor de uma suposta finitude.
Vamos, agora,
cambalear para o zig. O zag só nos atordoa.
Um ébrio
apaixonado pela existência aproxima-se, então, do seu discurso arranhado:
Os pedaços de
átomos que constroem nossos esqueletos estavam espalhados pelos grãos de
estrelas do universo. Sem percebermos a relatividade do tempo, as mãos da
Gravidade e de outras Forças, que desconhecemos, nos atraía para o centro de nós
mesmos. Cada partícula e pó de estrela, cometa e planeta desta galáxia desgarraram-se
e, lentamente ao longo de milênios ou milionênios, reuniram-se pela primeira
vez no útero de uma fêmea, invejada portadora de vida.
Um pequeno
espaço no vácuo do corpo humano, milhões de seres de origens incognoscíveis se
metamoforzeando em algo, finalmente, exprimível em palavras. Duas coisas se
formaram. Talvez uma não pela primeira vez. Carne e Espírito.
Por óbvio que a
Carne se esfacela pelos ventos do Tempo. Mas quanto ao Espírito, sempre existe
uma versão mais otimista.
A Alma de uma
pessoa, ao longo da sua vida, vai se derramando e enchendo o corpo de si. Cada
vez mais, o receptáculo corporal vai sendo preenchido pela sua Essência
primeira.
Quando o corpo já
não aguenta mais nenhum líquido de Alma, a pessoa está plena de si. E por não
caber mais em si mesma, o frasco se rompe. A Carne do frasco se espalha em partículas
pelos cantos do planeta que habitamos. Já o líquido do Espírito nos oferta ao
menos duas trajetórias possíveis:
Ou seremos
derramados novamente em outro copo, não necessariamente de carne;
Ou nossa alma
será espalhada em grãos pelo universo, à semelhança do receptáculo carnal. E
nossa consciência se dissiparia eternamente num sono profundo...
A doce
probabilidade quase matemática da não finitude, por momentos etéreos, sossega a
noite dos incrédulos. Calcula-se a raiz quadrada do mistério e pode-se sonhar
tranquilo com a sombra das coisas que não cabem nos tubos de ensaio.
Respira-se mais
uma vez. O trigo plantado será ceifado e continuará em forma de pão.
Talvez a mão
que nos embala no berço seja a mesma que nos carregará ao sepulcro. Aquela que
hoje nos planta, (elipse) a mesma que nos colherá amanhã na Terra. Talvez o
momento do óbito, de quando as luzes se apagam, seja somente um simples “fechar
e abrir” de portas. E quem nos conduz ao próximo palco seja uma senhora gentil
e afetuosa, que ainda não aprendemos a amar em todas as suas aparições.
Fato finado, visto
e comentado de um só lado do rio, não poderia ser descritível por completo.
Sempre faltarão as palavras dos que estão do outro lado. Palavras que dificilmente
poderiam ser ditas pessoalmente. Intra rio não há ponte. Quem quiser passar ao
outro lado será abruptamente mergulhado, mas ao chegar à margem, de lá sairá um
distinto ser. Ninguém é o mesmo depois de atravessar as correntes caudalosas
que tangenciam as margens habitáveis destes Estados nascionais e falecionais/antenascionais.
Entre o mundo
dos Nascidos e o país dos Falecidos/Antenascidos, os recados costumam ser
enviados à distância. Os que atravessam tais fronteiras, já não conservam a
consciência de si, tampouco de sua mensagem.
Alguns olham
para nossas margens e, atônitos com tamanha desgraça, lançam-se bravamente com
o fito de nos salvar. Precisam nos dizer, entre coisas outras, que os buracos
que cavamos poderão ser covas de gerações vindouras.
Mas os mensageiros,
ao desembarcarem nesta estação, precisam lentamente recobrar a consciência. À
medida que seu copo vai sendo preenchido de alma, o recém-nascido redescobre
sua missão e pretende executá-la antes que o seja ele mesmo.
Comunicação.
Janelas precisam ser abertas para o Sol entrar na casa.
De lá para cá,
incógnita. De cá para lá, (...) os indoutos chamam “superstição”.
Uma oração, uma
reza, uma dança, um passe, uma dose, um transe, uma transa, um mantra,
sofrimento, festividades, reclusão e comunhão... formas e fórmulas de contato
que são, aos viventes, sem explicação.
Antes do
primeiro homem “descobrir” que a Terra era circular, já havia existido outros
homens e mulheres, que, ao menos, imaginaram coisas ainda mais absurdas. Os que
diziam coisas mirabolantes e ainda inexplicáveis eram entregues pelos viventes
à Mãe Morte.
As fogueiras
sempre serão uma variável que dificultará o solucionamento da equação que se
põe entre os lados do rio.
Caminhamos a
passos lentos, mas que a cada momento ficam mais e mais largos.
Vamos acreditar
nas gerações.
Vamos confiar
que nossas palavras continuarão a ser ouvidas ao longo dos tempos.
Vamos confiar
que nossos filhos irão aplicar nossos ensinamentos.
Vamos crer que
eles terão melhores ensinamentos aos seus próprios filhos.
Crer em um
sentido,
Pensar em uma
razão
E imaginar (elipse do ponto final)