terça-feira, 9 de junho de 2015

A Eleição no Céu

Conto

A Eleição no Céu -
A Travesti e o Empresário

     Satanás, maior empresário do Céu no ramo de eletricidade, fornecia luz elétrica a toda cidade de Nova Jerusalém.  Por ser tão bem sucedido nos negócios, ficou famoso e ganhou a alcunha de Anjo de Luz.
     Bastante rico, depois de dominar todo o mercado do setor, Lúcifer, como alguns o chamavam, já não estava contente em possuir somente o poder econômico. Resolveu, então, se candidatar à Presidência do Paraíso.
     “Loucura”, disseram uns anjos de baixa patente, sentindo-se indignados.
     Não demorou muito e um alvoroço se formou na praça central, produzindo um burburinho que silenciava um coral de anjos posicionado num coreto próximo.
     Astutamente tomando a palavra, o Diabo argumentou: “Deus é um ausente. Abandonou o   Paraíso há mais de 2 milênios! Agora, só quer saber de passear pela Terra e andar com os seres humanos! Já viveu com tribos africanas, habitou entre os Maias, perambulou pela Palestina, Grécia, Índia... e a nossa cidade celestial, cada vez mais A-BAN-DO-NA-DA! !Isso aqui está uma bagunça! O Céu precisa de um Choque de Ordem, urgente!”
     Após o contundente discurso, os aplausos choviam das mãos de querubins e serafins orgulhosos, que já ensaiavam uma coligação partidária.
     Naquele momento, os anjos mais pobres ficaram temerosos e procuraram saber do paradeiro de Deus. Ouvia-se muito que o Senhor habitava na periferia de uma grande cidade na Terra e que, não achando suficiente ser homem, quis ser mulher, mesmo sendo homem. Suspeitosos, os anjos não acreditaram em tamanha bobagem!
     Para piorar a situação, rapidamente, em menos de um mês, instalava-se o pleito eleitoral e todo o Paraíso se reuniu para a votação – anjos, arcanjos, querubins, serafins e almas humanas enfeitavam o auditório, com suas bandeiras, broches e botons. 
    Os anjos, as almas e parte dos arcanjos panfletavam por Iaweh.  Já os seres de maior status social, como os querubins e  serafins,  militavam pelo Empresário da Luz, chegando até a comprar alguns votos.
    Passando a fase dos debates, longos e cansativos discursos consolidaram as posições. Satanás, não abrindo mão de suas trapaças, montou um curral eleitoral e conquistou muitos votos.
    A apuração dos sufrágios demorou longas horas. Então, quando já era noite e todos estavam exaustos, chegou-se a um resultado final. EMPATE.
    “Impossível!” Exclamou o Diabo. - Eu gastei metade do meu capital nessa campanha, investi pesado em publicidade, tempo de televisão, rádio, internet... As pesquisas eram claras, eu deveria ter vencido! Com certeza, alguém ainda não votou!”
    Acontece que, por ironia do destino ou não, Lúcifer estava certo.  Um ser celestial ainda não havia votado. Era Deus.
    E, por conseguinte, como ordenava o regulamento, o Anjo mesário anunciou que faria a primeira chamada do eleitor ausente.
    O Empresário até que pensou em impedir o ato oficial, mas concluiu que a chamada iria lhe ganhar tempo.  Deus, sumido há 2 mil anos, não  deveria aparecer logo agora. E, assim, com mais tempo, poderia acontecer que um ser humano morresse, uma nova alma chegaria e ele poderia comprar mais um voto e vencer a eleição.
     Assentiu , portanto, que “sim” com a cabeça e a chamada foi feita.
    - “Iaweh!” Gritou o anjo, como quem cumpre uma mera formalidade.
     E o silêncio se alojou no auditório.
    Em seguida, levantou o anjo da cadeira, improvisou uma pose mais pomposa e fez a segunda chamada, recebendo o mesmo silêncio, já esperado.
    Os dirigentes das chapas conversaram entre si e decidiram fazer uma terceira e última chamada.
    Lúcifer, fazendo algo que não era de seu feitio, pôs-se a rezar, suplicando ardentemente pela morte de algum infeliz. Os anjos de Iaweh , aflitos, desejavam a volta de Deus, mais do que os crentes desejam a volta de Jesus.
     O mesário, portanto, já cansado e faminto, proclamou a terceira vez, com desânimo no coração, o nome de Deus.
    -IAWEH!
    Os dois segundos posteriores à última convocação pareceram os mais longos de toda a eternidade.
    De repente, como num estalo, todos viraram para o mesmo lado simultaneamente.  Um barulho de passos lentamente invadia todo o lugar, despertando a curiosidade dos presentes. Um som oco trazia a certeza de que um salto alto colidia com a madeira dos degraus e estava cada vez mais próximo. Vagarosamente, como que debochando da curiosidade dos anjos, o mais novo ser celestial subia as escadas do salão.
     Primeiro, um cabelo loiro se apossou das visões, seguido por um rosto carregado de uma maquiagem pesada, que não conseguia disfarçar a barba mal feita. Depois, uma silhueta feminina, altamente sexualizada, vinha preenchida com roupas curtas, contrariando o porte viril do indivíduo.
     O coração do Diabo dava coices em seu peito, enquanto no canto da sua boca lhe surgia um riso discreto.
     -“Uma travesti! Uma travesti morreu vítima da AIDS! Glória a Deus... quer dizer, Glória a mim!” E, imediatamente, foi Satanás ao encontro da nova eleitora, ganhar seu voto.
     A inusitada criatura mascava um chiclete de boca aberta e, antes que o Empresário da Luz a interrogasse, ela exclamou: “PRESENTE, voto na chapa 2!”
     Os olhos esbugalhados de todos estabeleciam um lindo contraste com o riso debochado de Iaweh, que sendo Deus passou a ser Deusa, reeleita como Presidenta do Céu.
     Mudando de humor, com um ar sério, a Travesti reeleita fitou o Empresário e disse:

     - “Satanás, você pecou. Mas seu pecado não foi querer ser igual a Deus. Foi querer ser maior que os anjos, os seus irmãos. Enquanto vocês quis ser deus e maior que todos os seus semelhantes, Eu me tornava igual aos humanos e os fazia iguais a mim. Enquanto você queria acumular poder, Eu empoderava os pequeninos, rejeitados e oprimidos. Por isso, Satanás, você não será Presidente do Céu, a sua empresa será partilhada entre todos os anjos e os seus lucros divididos entre todos no Paraíso.”
     E o Empresário , ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades. Ele e seus partidários, sedentos por poder, não podiam aceitar viver em igualdade com os anjos menores e foram morar em outro lugar.



- Fim -






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