REGRESSÃO
Aquela era uma era errada para plantar bananeiras. E como era errada, por isso mesmo era a certa! Dava uma banana e plantava quando ninguém estivesse vendo.
Não
tinha terra no jardim de infância. As flores eram plantadas no pagamento da matrícula
escolar e regadas a cada mensalidade quitada.
Disco
voador apenas tocava música na vitrola, que não era de vidro.
O pão, desmiolado, era liso para
passar a faca com manteiga. E a Manteiga, que depois foi substituída pela Margarina (irmã feia da Margarida e
cunhada do pato Donald), coitada da Mãenteiga! Solteira e sozinha, esperava
triste pela vinda do Paitega, prometida nas piadas do avô da criança que lhe
passava no trigo.
A vida não era fácil ... pros
outros. Naquele tempo, pé de moleque quando não estava na boca do povo corria na rua esfolado no asfalto...
Bola de “grude” não era
brincadeira! Quer dizer, até era, quando não era “à vera”. Essa Vera, prima
distante da minha mãe, nunca vinha lá em casa e quando chegava todo ano na
estação ia embora sem se apresentar a mim. A vera só não estava presente quando
era “à brinca” – brinco perdido da minha irmã que caiu no campinho de terra
onde jogava bolinha de gude e deixava a brincadeira muito mais divertida do que
quando era “à vera”. Porque na vera, eu sempre
perdia minhas bolinhas mais preciosas pras outras crianças.
Nesta época, eu enfrentava um
dilema. O papel do pão era ser comido ou rabiscado? Só sabia que seu barbante
enrolava no pião, que rodava na cozinha e quebrava os azulejos da avó, que
gritava muito.
Naquele tempo. O ponto. final
realmente terminava. a frase e . as
letras maiúsculas começavam. outra – hoje
pontos finais terminam tanta coisa...inclusive as viagens de ônibus.
Já a vírgula, que era mãe de
cangaceiro Virgulino Lampião (sempre confundido com Napoleão), só servia para
ajudar os leitores a respirar. Formada na Academia de Bombeiros Militares, ela
aplicava o “boca a boca” na gente.
Coitados dos meus professores, morriam afogados nas minhas redações.
Coitados dos meus professores, morriam afogados nas minhas redações.
Naquela
era, só tinha feira aos sábados e domingos. E a segunda vinha depois da
primeira e sempre precedia a terceira, a não ser que Jesus voltasse antes.
“Se
Jesus voltasse agora será que eu poderia levar meu vídeo game Master System pro
céu? Culto todo dia ia ser um porre, teria que me divertir um pouco. Difícil ia
ser jogar Mortal Kombat no céu. Deus não
ia deixar dar Fatality. Era muito ‘sangre’.”
Pois
é, era tudo errado naquela Era. Só que às vezes era certo também. Na verdade,
só o que não estava errado era o que estava certo. Mas fora isso, estava tudo
bem. Ou mal.
Naquela
época, eu era o único que conseguia apagar rabiscos de caneta com borracha de
apagar caneta que não apagava caneta. Só lápis e lapiseira. Mas minha mãe
insistia que apagava caneta e parecia que as mães das outras crianças também.
Quando
a borracha não dava jeito, tinha sempre o miolo do pão desmiolado ou o dedo
cuspido. No final do ano, eu não tinha
caderno. Tinha pergaminho.
Com
arroz, a cafifa, que não era produto da Fifa – e por isso custava 25 centavos a
raia e 50 o peão - , era colada se rasgasse. Subia pesadona e ficava boa pra sair
engatando na tora.
É...
naquela Era, a era só era uma planta no muro da minha casa. Naquela época, a Época
era uma revista que só servia pra recortar figurinha pra colar no trabalho da
escola. Naqueles dias, o dia cabia em 24 horas.
E
naquele tempo, o tempo não cabia no relógio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário