terça-feira, 9 de junho de 2015

REGRESSÃO

REGRESSÃO

                   Aquela era uma era errada para plantar bananeiras. E como era errada, por isso mesmo era a certa! Dava uma banana e plantava quando ninguém estivesse vendo.

Não tinha terra no jardim de infância. As flores eram plantadas no pagamento da matrícula escolar e regadas a cada mensalidade quitada.
Disco voador apenas tocava música na vitrola, que não era de vidro.
O pão, desmiolado, era liso para passar a faca com manteiga.  E a Manteiga, que depois foi substituída pela Margarina (irmã feia da Margarida e cunhada do pato Donald), coitada da Mãenteiga! Solteira e sozinha, esperava triste pela vinda do Paitega, prometida nas piadas do avô da criança que lhe passava no trigo.
A vida não era fácil ... pros outros. Naquele tempo, pé de moleque quando não estava na boca do povo corria na rua esfolado no asfalto...
Bola de “grude” não era brincadeira! Quer dizer, até era, quando não era “à vera”. Essa Vera, prima distante da minha mãe, nunca vinha lá em casa e quando chegava todo ano na estação ia embora sem se apresentar a mim. A vera só não estava presente quando era “à brinca” – brinco perdido da minha irmã que caiu no campinho de terra onde jogava bolinha de gude e deixava a brincadeira muito mais divertida do que quando era “à vera”.  Porque na vera, eu sempre perdia minhas bolinhas mais preciosas pras outras crianças.
Nesta época, eu enfrentava um dilema. O papel do pão era ser comido ou rabiscado? Só sabia que seu barbante enrolava no pião, que rodava na cozinha e quebrava os azulejos da avó, que gritava muito.
Naquele tempo. O ponto. final realmente terminava.  a frase e . as letras maiúsculas começavam.  outra – hoje pontos finais terminam tanta coisa...inclusive as viagens de ônibus.
Já a vírgula, que era mãe de cangaceiro Virgulino Lampião (sempre confundido com Napoleão), só servia para ajudar os leitores a respirar. Formada na Academia de Bombeiros Militares, ela aplicava o “boca a boca” na gente.
                   Coitados dos meus professores,  morriam afogados nas minhas redações.
Naquela era, só tinha feira aos sábados e domingos. E a segunda vinha depois da primeira e sempre precedia a terceira, a não ser que Jesus voltasse antes.
“Se Jesus voltasse agora será que eu poderia levar meu vídeo game Master System pro céu? Culto todo dia ia ser um porre, teria que me divertir um pouco. Difícil ia ser jogar Mortal Kombat no céu.  Deus não ia deixar dar Fatality. Era muito ‘sangre’.”
Pois é, era tudo errado naquela Era. Só que às vezes era certo também. Na verdade, só o que não estava errado era o que estava certo. Mas fora isso, estava tudo bem. Ou mal.
Naquela época, eu era o único que conseguia apagar rabiscos de caneta com borracha de apagar caneta que não apagava caneta. Só lápis e lapiseira. Mas minha mãe insistia que apagava caneta e parecia que as mães das outras crianças também.
Quando a borracha não dava jeito, tinha sempre o miolo do pão desmiolado ou o dedo cuspido.  No final do ano, eu não tinha caderno. Tinha pergaminho.
Com arroz, a cafifa, que não era produto da Fifa – e por isso custava 25 centavos a raia e 50 o peão - , era colada se rasgasse. Subia pesadona e ficava boa pra sair engatando na tora.
É... naquela Era, a era só era uma planta no muro da minha casa. Naquela época, a Época era uma revista que só servia pra recortar figurinha pra colar no trabalho da escola. Naqueles dias, o dia cabia em 24 horas.

E naquele tempo, o tempo não cabia no relógio.

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