A Lenda de Poércio
Numa era
longínqua, em que se trabalhava para viver e se vivia para trabalhar, mulheres
e homens não aguentaram mais esperar o final de semana e resolveram saquear o Paraíso,
a fim de encontrar um consolo para suas rotinas densas.
Aproveitando
que Deus estava de férias há mil anos, sem nenhum esforço manietaram e
prenderam os anjos no quarto de Lúcifer, que estava desocupado.
Emocionados e
orgulhosos, todos e todas desciam as escadas bradando hinos, celebrando a
vitória, carregando tesouros, riquezas e também o filho de Deus, que seria
designado a trabalhar como mágico num circo.
Chegando
ao hall central, avistaram um ser despreocupado bebendo vinho, tocando violão e
cantando bossa nova, como que alheio a todo aquele alvoroço...! Perguntarem-lhe
seu nome e a criatura cantarolou - “sou a Poesia”.
Dentre
os humanos no recinto, havia um com jeito e pompa de profeta. Este, que já
estava cansado de carregar Jesus nos ombros, sugeriu levar a Poesia no lugar do
Messias. Dito e feito. A Poesia, que não gostava de ser carregada de jeito
nenhum, prontamente concordou em descer do Céu, pois queria também conhecer
coisas novas e já estava amargurada de tanto ouvir o coral dos anjos, que só
cantava músicas do cantor cristão, chatas pra danar.
A
Poesia precisou assumir uma forma humana e, como tinha se afeiçoado ao profeta,
fundiu-se com ele, no melhor estilo Dragon Ball Z.
Deste
dia em diante, não mudou muita coisa na vida das pessoas. Elas continuaram
trabalhando muito e só descansando nos finais de semana, mas as suas rotinas tinham
ficado mais leves com a graciosa presença da Poesia nas igrejas, nas praças, nas
filas do banco, nas universidades, etc.
Enganou-se
quem achava que o maior talento da Poesia era escrever seus poemas e tocar suas
músicas. Não era. O seu maior dom era a generosidade. Por onde andava, exalava
e transpirava inspiração para as pessoas que, sempre que a encontravam,
voltavam correndo para casa esboçar algumas linhas de um poema ou uma prosa.
Contudo,
por assumir a forma humana, os dias da Poesia sempre chegavam ao fim, após
muita cantoria pela Terra... Mas, de tempos em tempos, reencarnava em profetas
e profetisas que, com uma sutil genialidade, encantavam e coloriam a vida
cinzenta das cidades.
Hoje,
a Poesia está por aí. Tem um andar manso, uma fala lenta, possui um jeito
delicado de músico... e pode ser encontrada pelos corredores da UERJ
acariciando sua barba de profeta.
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