terça-feira, 9 de junho de 2015

A Lenda de Poércio

A Lenda de Poércio

Numa era longínqua, em que se trabalhava para viver e se vivia para trabalhar, mulheres e homens não aguentaram mais esperar o final de semana e resolveram saquear o Paraíso, a fim de encontrar um consolo para suas rotinas densas.
Aproveitando que Deus estava de férias há mil anos, sem nenhum esforço manietaram e prenderam os anjos no quarto de Lúcifer, que estava desocupado.
Emocionados e orgulhosos, todos e todas desciam as escadas bradando hinos, celebrando a vitória, carregando tesouros, riquezas e também o filho de Deus, que seria designado a trabalhar como mágico num circo.
Chegando ao hall central, avistaram um ser despreocupado bebendo vinho, tocando violão e cantando bossa nova, como que alheio a todo aquele alvoroço...! Perguntarem-lhe seu nome e a criatura cantarolou - “sou a Poesia”.
Dentre os humanos no recinto, havia um com jeito e pompa de profeta. Este, que já estava cansado de carregar Jesus nos ombros, sugeriu levar a Poesia no lugar do Messias. Dito e feito. A Poesia, que não gostava de ser carregada de jeito nenhum, prontamente concordou em descer do Céu, pois queria também conhecer coisas novas e já estava amargurada de tanto ouvir o coral dos anjos, que só cantava músicas do cantor cristão, chatas pra danar.
A Poesia precisou assumir uma forma humana e, como tinha se afeiçoado ao profeta, fundiu-se com ele, no melhor estilo Dragon Ball Z.
Deste dia em diante, não mudou muita coisa na vida das pessoas. Elas continuaram trabalhando muito e só descansando nos finais de semana, mas as suas rotinas tinham ficado mais leves com a graciosa presença da Poesia nas igrejas, nas praças, nas filas do banco, nas universidades, etc.
Enganou-se quem achava que o maior talento da Poesia era escrever seus poemas e tocar suas músicas. Não era. O seu maior dom era a generosidade. Por onde andava, exalava e transpirava inspiração para as pessoas que, sempre que a encontravam, voltavam correndo para casa esboçar algumas linhas de um poema ou uma prosa.
Contudo, por assumir a forma humana, os dias da Poesia sempre chegavam ao fim, após muita cantoria pela Terra... Mas, de tempos em tempos, reencarnava em profetas e profetisas que, com uma sutil genialidade, encantavam e coloriam a vida cinzenta das cidades.

Hoje, a Poesia está por aí. Tem um andar manso, uma fala lenta, possui um jeito delicado de músico... e pode ser encontrada pelos corredores da UERJ acariciando sua barba de profeta.

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