O CONTO
DE IUÍTA PATAXÓ,
o pajé da Aldeia Maracanã
Isso mesmo, Iu-íta era como se
chamava aquele pequeno curumim. Ou, na
língua dos Caras-pálidas, Pedra do Rio e do Mar. “Teu nome foi coisa do Vento”, disse um dia sua Mãe.
“Naquela
noite sombria, nenhuma estrela mostrou sua graça, o Sol havia brigado feio com
a Lua e, por isso, fazia birra para amanhecer, de modo que o céu ficou escuro por
tanto tempo que toda a tribo ficou apavorada. Além disso, ventava tanto e com
tamanha força que as palmeiras, ao redor da aldeia, berraram por horas devido à
violência do ar. Seu parto, meu filho, durou dois dias inteiros de escuridão e,
enfim, quando o Sol, aquele danado, aparecia tímido atrás do milharal e o Vento
cansava-se de sua ventania, uma brisa de alívio entrou então pelas fendas da
nossa oca, sussurrando ao meu ouvido qual deveria ser o seu nome e liberando
meu ventre para você nascer.”
Era novembro, e já havia 13
primaveras que aquele moleque franzino e de pele enegrecida sabia o que era ser
um Pataxó. Não muito valente, logo abandonou a ideia de ser guerreiro. Sua
paixão pelas ervas o levou a outro caminho, queria ser pajé. Sonhava em poder
um dia curar muita gente e invocar os espíritos dos seus ancestrais da
floresta. Queria poder falar com a mata, escutar a linda música do riacho, voar
ao lado dos pássaros, transformar-se em animais silvestres e ouvir os
ensinamentos do Vento, seu padrinho de nascimento. Coisas como essas, só o pajé
podia fazer.
E foi por causa desse sonho que Iuíta,
determinado, saiu à procura de seu destino. Enveredou-se pela mata adentro e se
perdeu lá pelas terras dos Guaranis. Com os Guaranis, o Pataxó ganhou morada e namorada.
Ganhou honra e respeito. Ganhou oca e uma nova família, mas ainda assim não era
pajé. Portanto, depois de quinze Luas cheias sentiu a hora de partir. Deixou
então a filha dos Guaranis, sua bela noiva, esperando ansiosa. Prometeu não
demorar mais que duas primaveras...
Partiu o homem, a quem chamavam
de Pedra. A Pedra partida entre o Rio e o Mar. Partida entre o sonho e a
realidade, entre o amor pela bela e o amor pelas plantas. Partiu, porque era um
partidor, já havia partido duas tribos, mas essa era a primeira vez que partia
um coração.
Levava consigo artesanatos
fabricados pela Cacique - missangas, colares, brincos, anéis de tucum-, além de
uns 3 palmitos extraídos de palmeiras, que ele mesmo derrubou com a ajuda de um
Cara-pálida peregrino por lá.
Cheio de bagagem, Iuíta foi-se
embora. Saiu da mata e dirigia-se, assim, desgovernadamente para um local
distante e misterioso, chamado pela nação dos Tukanos de Floresta do Governo,
também conhecido entre os Apurinãs como a Selva de Ferro, capital do povo-sem-mata.
Já o tinham advertido os Guaranis
e os Pataxós que o curumim da nossa história não sabia aonde estava indo e que,
por isso, poderia correr muitos perigos, sobretudo, se fosse parar na terra dos
Caras-Pálidas. Mas a Pedra, como gostava de ser chamado, era teimosa. Não sabia
para onde ia, mas cismou de seguir o Vento, porque era ele quem determinava seu
caminho. E naquele verão, o Vento soprava pra lá.
O padrinho Vento soprou e soprou
e o nosso Pataxó, agora mais Guarani do que nunca, chegou numa grande e suja
Baía. Encucado e confuso, Iuíta não conseguiu desvendar o enigma: Como o povo
que ali vivia podia chamar de “Rio” o que na verdade era Baía? Por acaso, não
sabiam que Rio não era Baía? Que Rio vinha de cima e dava no mar e a Baía era
um pedaço de mar que avançava sobre terra? E mais, por que diabos o chamavam de
“Janeiro”, se já estavam em meados de março?
Seria aquele povo burro e
ignorante? Ou seria menos evoluído? Não. Iuíta não podia acreditar que havia
seres humanos menos capazes que outros... Guardou na mente este caso, e agora
se escutasse falar em “Rio de Janeiro”, o Pataxó logo pensaria naquilo que
entendeu por bem chamar de Baía de março. Seguiu-se o mistério...
Assim que chegou, tentou trocar
seus artesanatos por comida. Parou no chão e arrumou, caprichosamente, os
produtos pelo meio do caminho, incitando os transeuntes a parar. Em poucos
minutos, foi enxotado aos berros. Neste dia, surgiu-lhe um novo enigma. Pois
desconheceu o que queria dizer aquele Cara-pálida agressivo, quando lhe
apontava o dedo e gritava raivosamente uma expressão curiosa - “índio fedido”.
O nosso Pataxó, mesmo sem entender do que se tratava, guardou o fato no
coração.
Passou-se um mês, e a Baía, que
era de março, tornou-se de abril.
Iuíta estava apavorado com a
escassez de alimento daquele local. Como não havia mata, não tinha manga, jaca
e nem mandioca, não tinha paca e nem anta pra caçar. A tal baía fedia a peixe podre. Ali, não dava
nem pra pescar. Como poderia realizar seu sonho e virar pajé se acabaria
morrendo de fome naquela aldeia sem mata? Ele tinha que dar um jeito.
Dessa forma, nosso curumim, que
estava há 2 dias sem comer, foi posto numa jaula - pegou um cacho de bananas e 4 anos de prisão. Mas antes, no
instante da apreensão, deparou-se novamente com o mesmo mistério. O dono das
bananas, em meio a muitos despautérios, deixou escapar uma grande interrogação
– “Saia daqui ‘índio maldito’”- berrou o feirante.
Pensou e refletiu a nossa Pedra,
mas não chegou à resposta do que viria ser um “índio”. E tampouco descobriu por
qual razão esse dito “índio” haveria de ser tão maldito por todas as bocas
dali.
E, assim, Pedra do Rio e do Mar,
o nosso Iuíta, conheceu a bárbara civilização. Não possuindo os papeis da sua
documentação, foi obrigado a se registrar no Governo. Mas, para isso, precisava
trocar de nome, pois nome de “índio” não podia ter não. Os homens da violência
pensaram em tudo quanto é substantivo próprio e impropriamente chegaram à
conclusão- “A partir de agora, tu serás Francisco”. E, como Francisco, foi para
prisão.
O Pataxó estava assustado! Não
sabia o que tinha feito de errado. Para ele, bananas eram presentes da terra e,
portanto, pertenciam a todos que tivessem fome. Além do mais, prender alguém
por 4 primaveras em celas escuras e abarrotadas de gente era cruel demais, para
sua nobre compreensão! Mais fosse sofrer a punição dos Guaranis, uma surra bem
dada com vara de goiabeira era muito mais fácil de suportar...
E saindo de lá, triste e acabado,
após 4 longos anos de confinamento
solitário, Francisco, furtado de seu verdadeiro nome, perambulava pela cidade
murcho, pálido, andarilho... mas com um novo pensamento e dimensão!
Mergulhou naquele mistério e aprendeu a notar
coisas a que não dava atenção. Descobriu que os tais índios, odiados e
maltratados, na realidade, haviam sido roubados em tempos remotos e esquecidos.
E nas ruas por onde andava, conheceu
alguns Xavantes, Tukanos, Guajajaras e Guaranis que, assim como ele, haviam se
perdido de casa. Notou que, para os bárbaros e selvagens Caras-pálidas, todos
esses povos eram tratados como uma coisa só, sem rosto, sem nome, sem terra... índios
e apenas índios. Esquecidos e abandonados, constantemente ameaçados de prisão,
de fome, de frio.
Então, naquele instante solitário,
com os documentos na mão, aquele índio desamparado sentiu-se perdendo a sua
identidade. Não via seu nome nem o de
sua nação. Naquela cártula verde apenas constava a marca de sua derrota -
“Francisco da Silva” prisioneiro da “República Federativa do Brasil”.
E foi assim, por destinado, que
em nossa Pedra agigantou-se a razão. A razão de um perseguido, a razão de um
espoliado, a razão de um índio que havia sido roubado em seu direito de
existir. E se existir era um direito do índio, desistir não seria opção. A Pedra decidiu, então, resistir.
-“Então
está consumado. Construirei uma aldeia dentro deste exílio. Uma aldeia dos
povos da mata no meio dessa Floresta de Ferro. Assim, nenhum índio, que aqui
estiver perdido, será maltratado, passará fome e frio. Nenhum índio receberá
pena de prisão. E se o índio for desterrado, na minha aldeia será chamado pelo
nome de sua nação. Aqui será uma terra de paz, de união de todos os povos.
Ninguém ficará para trás. A aldeia do Guajajara, do Apurinã, do Tukano, do
Guarani, do Xavante, do Tupi e de quem mais for maltratado pelo povo sem mata,
pelos terríveis Caras-pálidas”.
E, então, assim foi e assim se
fez. Todos os índios, perdidos naquela imensidão de concreto frio e desalmado,
foram resgatados e acharam abrigo em plena terra do inimigo. Ali, estavam a
salvo, enquanto não descobriam o caminho de volta para suas casas, nas florestas,
nas matas, nos cerrados... Iuíta Pataxó, muito querido e admirado por todos,
realizava enfim o seu sonho. Depois de um longo e cansativo ritual liderado
pelos sábios da nova aldeia, a chamada Aldeia Maracanã, o nosso pequeno curumim
se tornava um grande pajé.
E no meio daquela Selva de Pedra,
a Pedra do Rio e do Mar, como num passe de mágica, passava agora a se consultar
com seu padrinho Vento, com quem podia se comunicar claramente. E, através de
seus novos poderes, Iuíta tinha descoberto inúmeras curas para o povo da sua
mais nova aldeia. Aprendeu também a ignorar os barulhos dos carros, da cidade e
das pessoas, enquanto redescobria os sons da Natureza escondida naquele local
nefasto. Rezava com o Sol todas as
manhãs, cantava com a Chuva, voava com os pássaros e colhia flores que brotavam
no asfalto.
Deste modo, mesmo no meio daquele
povo cruel, a Aldeia Maracanã acolhia e amparava os integrantes dos povos da
mata perdidos por ali. E o Pajé da aldeia, com seus conhecimentos milenares e
poderes fantásticos, alegrava, aconselhava e curava a todos, que passavam a
respeitá-lo e admirá-lo cada vez mais e mais.
A aldeia crescia, se fortalecia e
mantinha firme sua resistência, todos estavam felizes e tudo estava dando
certo. Mas um belo dia o Pataxó sentiu que era hora de partir, novamente. Era
um partidor. Tinha que partir. Aliás, já
havia passado seis primaveras, quatro a mais do que pretendera ficar. A Baía,
que no início era de março, já estava em julho pela sexta vez. Ele precisava
deixar aquele “rio de janeiro” e voltar para a terra dos Guaranis, como
prometera.
Portanto, o nosso Pajé, o pajé da
Aldeia Maracanã, usando seus poderes transformou-se então num lindo pássaro de
penas negras e brilhantes, levantou voo e partiu, partindo mais uma aldeia pela
sua despedida. A Pedra do Rio e do Mar, o curumim da nossa história, já não era
mais um menino. Assim, aquela bela ave negra, exalando liberdade, deixou para
trás amigos, roupas, documentos e um nome.
“Francisco”, existiam milhares
por aí, mas o homem que eu conheci se chamava Iuíta Pataxó, vivia entre os
Guaranis e era um Pajé... dos bons.
Nota:
Aldeia
Maracanã foi um verdadeiro fato político de resistência indígena em plena
cidade do Rio de Janeiro. Sua criação foi obra coletiva de inúmeras pessoas de
diversos povos.
Este
texto tem objetivo meramente figurativo.
Uma
pena o Estado ter agido com tanta truculência contra nossos amigos e amigas.
Resta a pergunta: Copa para quem?
Aldeia
Maracanã resiste!
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