terça-feira, 9 de junho de 2015

O CONTO
DE IUÍTA PATAXÓ,
o pajé da Aldeia Maracanã


Isso mesmo, Iu-íta era como se chamava aquele pequeno curumim.  Ou, na língua dos Caras-pálidas, Pedra do Rio e do Mar. “Teu nome foi coisa do Vento”, disse um dia sua Mãe. 
“Naquela noite sombria, nenhuma estrela mostrou sua graça, o Sol havia brigado feio com a Lua e, por isso, fazia birra para amanhecer, de modo que o céu ficou escuro por tanto tempo que toda a tribo ficou apavorada. Além disso, ventava tanto e com tamanha força que as palmeiras, ao redor da aldeia, berraram por horas devido à violência do ar. Seu parto, meu filho, durou dois dias inteiros de escuridão e, enfim, quando o Sol, aquele danado, aparecia tímido atrás do milharal e o Vento cansava-se de sua ventania, uma brisa de alívio entrou então pelas fendas da nossa oca, sussurrando ao meu ouvido qual deveria ser o seu nome e liberando meu ventre para você nascer.”
Era novembro, e já havia 13 primaveras que aquele moleque franzino e de pele enegrecida sabia o que era ser um Pataxó. Não muito valente, logo abandonou a ideia de ser guerreiro. Sua paixão pelas ervas o levou a outro caminho, queria ser pajé. Sonhava em poder um dia curar muita gente e invocar os espíritos dos seus ancestrais da floresta. Queria poder falar com a mata, escutar a linda música do riacho, voar ao lado dos pássaros, transformar-se em animais silvestres e ouvir os ensinamentos do Vento, seu padrinho de nascimento. Coisas como essas, só o pajé podia fazer.
 E foi por causa desse sonho que Iuíta, determinado, saiu à procura de seu destino. Enveredou-se pela mata adentro e se perdeu lá pelas terras dos Guaranis. Com os Guaranis, o Pataxó ganhou morada e namorada. Ganhou honra e respeito. Ganhou oca e uma nova família, mas ainda assim não era pajé. Portanto, depois de quinze Luas cheias sentiu a hora de partir. Deixou então a filha dos Guaranis, sua bela noiva, esperando ansiosa. Prometeu não demorar mais que duas primaveras...
Partiu o homem, a quem chamavam de Pedra. A Pedra partida entre o Rio e o Mar. Partida entre o sonho e a realidade, entre o amor pela bela e o amor pelas plantas. Partiu, porque era um partidor, já havia partido duas tribos, mas essa era a primeira vez que partia um coração.
Levava consigo artesanatos fabricados pela Cacique - missangas, colares, brincos, anéis de tucum-, além de uns 3 palmitos extraídos de palmeiras, que ele mesmo derrubou com a ajuda de um Cara-pálida peregrino por lá.
Cheio de bagagem, Iuíta foi-se embora. Saiu da mata e dirigia-se, assim, desgovernadamente para um local distante e misterioso, chamado pela nação dos Tukanos de Floresta do Governo, também conhecido entre os Apurinãs como a Selva de Ferro, capital do povo-sem-mata.
Já o tinham advertido os Guaranis e os Pataxós que o curumim da nossa história não sabia aonde estava indo e que, por isso, poderia correr muitos perigos, sobretudo, se fosse parar na terra dos Caras-Pálidas. Mas a Pedra, como gostava de ser chamado, era teimosa. Não sabia para onde ia, mas cismou de seguir o Vento, porque era ele quem determinava seu caminho. E naquele verão, o Vento soprava pra lá.
O padrinho Vento soprou e soprou e o nosso Pataxó, agora mais Guarani do que nunca, chegou numa grande e suja Baía. Encucado e confuso, Iuíta não conseguiu desvendar o enigma: Como o povo que ali vivia podia chamar de “Rio” o que na verdade era Baía? Por acaso, não sabiam que Rio não era Baía? Que Rio vinha de cima e dava no mar e a Baía era um pedaço de mar que avançava sobre terra? E mais, por que diabos o chamavam de “Janeiro”, se já estavam em meados de março?
Seria aquele povo burro e ignorante? Ou seria menos evoluído? Não. Iuíta não podia acreditar que havia seres humanos menos capazes que outros... Guardou na mente este caso, e agora se escutasse falar em “Rio de Janeiro”, o Pataxó logo pensaria naquilo que entendeu por bem chamar de Baía de março. Seguiu-se o mistério...
Assim que chegou, tentou trocar seus artesanatos por comida. Parou no chão e arrumou, caprichosamente, os produtos pelo meio do caminho, incitando os transeuntes a parar. Em poucos minutos, foi enxotado aos berros. Neste dia, surgiu-lhe um novo enigma. Pois desconheceu o que queria dizer aquele Cara-pálida agressivo, quando lhe apontava o dedo e gritava raivosamente uma expressão curiosa - “índio fedido”. O nosso Pataxó, mesmo sem entender do que se tratava, guardou o fato no coração.
Passou-se um mês, e a Baía, que era de março, tornou-se de abril.
Iuíta estava apavorado com a escassez de alimento daquele local. Como não havia mata, não tinha manga, jaca e nem mandioca, não tinha paca e nem anta pra caçar.  A tal baía fedia a peixe podre. Ali, não dava nem pra pescar. Como poderia realizar seu sonho e virar pajé se acabaria morrendo de fome naquela aldeia sem mata? Ele tinha que dar um jeito.
Dessa forma, nosso curumim, que estava há 2 dias sem comer, foi posto numa jaula - pegou um cacho de bananas e 4 anos de prisão. Mas antes, no instante da apreensão, deparou-se novamente com o mesmo mistério. O dono das bananas, em meio a muitos despautérios, deixou escapar uma grande interrogação – “Saia daqui ‘índio maldito’”- berrou o feirante.  
Pensou e refletiu a nossa Pedra, mas não chegou à resposta do que viria ser um “índio”. E tampouco descobriu por qual razão esse dito “índio” haveria de ser tão maldito por todas as bocas dali.
E, assim, Pedra do Rio e do Mar, o nosso Iuíta, conheceu a bárbara civilização. Não possuindo os papeis da sua documentação, foi obrigado a se registrar no Governo. Mas, para isso, precisava trocar de nome, pois nome de “índio” não podia ter não. Os homens da violência pensaram em tudo quanto é substantivo próprio e impropriamente chegaram à conclusão- “A partir de agora, tu serás Francisco”. E, como Francisco, foi para prisão.
O Pataxó estava assustado! Não sabia o que tinha feito de errado. Para ele, bananas eram presentes da terra e, portanto, pertenciam a todos que tivessem fome. Além do mais, prender alguém por 4 primaveras em celas escuras e abarrotadas de gente era cruel demais, para sua nobre compreensão! Mais fosse sofrer a punição dos Guaranis, uma surra bem dada com vara de goiabeira era muito mais fácil de suportar...
E saindo de lá, triste e acabado,  após 4 longos anos de confinamento solitário, Francisco, furtado de seu verdadeiro nome, perambulava pela cidade murcho, pálido, andarilho... mas com um novo pensamento e dimensão!
 Mergulhou naquele mistério e aprendeu a notar coisas a que não dava atenção. Descobriu que os tais índios, odiados e maltratados, na realidade, haviam sido roubados em tempos remotos e esquecidos.  E nas ruas por onde andava, conheceu alguns Xavantes, Tukanos, Guajajaras e Guaranis que, assim como ele, haviam se perdido de casa. Notou que, para os bárbaros e selvagens Caras-pálidas, todos esses povos eram tratados como uma coisa só, sem rosto, sem nome, sem terra... índios e apenas índios. Esquecidos e abandonados, constantemente ameaçados de prisão, de fome, de frio.
Então, naquele instante solitário, com os documentos na mão, aquele índio desamparado sentiu-se perdendo a sua identidade.  Não via seu nome nem o de sua nação. Naquela cártula verde apenas constava a marca de sua derrota - “Francisco da Silva” prisioneiro da “República Federativa do Brasil”.
E foi assim, por destinado, que em nossa Pedra agigantou-se a razão. A razão de um perseguido, a razão de um espoliado, a razão de um índio que havia sido roubado em seu direito de existir. E se existir era um direito do índio, desistir não seria opção.  A Pedra decidiu, então, resistir.
-“Então está consumado. Construirei uma aldeia dentro deste exílio. Uma aldeia dos povos da mata no meio dessa Floresta de Ferro. Assim, nenhum índio, que aqui estiver perdido, será maltratado, passará fome e frio. Nenhum índio receberá pena de prisão. E se o índio for desterrado, na minha aldeia será chamado pelo nome de sua nação. Aqui será uma terra de paz, de união de todos os povos. Ninguém ficará para trás. A aldeia do Guajajara, do Apurinã, do Tukano, do Guarani, do Xavante, do Tupi e de quem mais for maltratado pelo povo sem mata, pelos terríveis Caras-pálidas”.
E, então, assim foi e assim se fez. Todos os índios, perdidos naquela imensidão de concreto frio e desalmado, foram resgatados e acharam abrigo em plena terra do inimigo. Ali, estavam a salvo, enquanto não descobriam o caminho de volta para suas casas, nas florestas, nas matas, nos cerrados... Iuíta Pataxó, muito querido e admirado por todos, realizava enfim o seu sonho. Depois de um longo e cansativo ritual liderado pelos sábios da nova aldeia, a chamada Aldeia Maracanã, o nosso pequeno curumim se tornava um grande pajé.
E no meio daquela Selva de Pedra, a Pedra do Rio e do Mar, como num passe de mágica, passava agora a se consultar com seu padrinho Vento, com quem podia se comunicar claramente. E, através de seus novos poderes, Iuíta tinha descoberto inúmeras curas para o povo da sua mais nova aldeia. Aprendeu também a ignorar os barulhos dos carros, da cidade e das pessoas, enquanto redescobria os sons da Natureza escondida naquele local nefasto. Rezava com o Sol  todas as manhãs, cantava com a Chuva, voava com os pássaros e colhia flores que brotavam no asfalto.
Deste modo, mesmo no meio daquele povo cruel, a Aldeia Maracanã acolhia e amparava os integrantes dos povos da mata perdidos por ali. E o Pajé da aldeia, com seus conhecimentos milenares e poderes fantásticos, alegrava, aconselhava e curava a todos, que passavam a respeitá-lo e admirá-lo cada vez mais e mais.  
A aldeia crescia, se fortalecia e mantinha firme sua resistência, todos estavam felizes e tudo estava dando certo. Mas um belo dia o Pataxó sentiu que era hora de partir, novamente. Era um partidor.  Tinha que partir. Aliás, já havia passado seis primaveras, quatro a mais do que pretendera ficar. A Baía, que no início era de março, já estava em julho pela sexta vez. Ele precisava deixar aquele “rio de janeiro” e voltar para a terra dos Guaranis, como prometera.
Portanto, o nosso Pajé, o pajé da Aldeia Maracanã, usando seus poderes transformou-se então num lindo pássaro de penas negras e brilhantes, levantou voo e partiu, partindo mais uma aldeia pela sua despedida. A Pedra do Rio e do Mar, o curumim da nossa história, já não era mais um menino. Assim, aquela bela ave negra, exalando liberdade, deixou para trás amigos, roupas, documentos e um nome. 
“Francisco”, existiam milhares por aí, mas o homem que eu conheci se chamava Iuíta Pataxó, vivia entre os Guaranis e era um Pajé... dos bons.


Nota:

Aldeia Maracanã foi um verdadeiro fato político de resistência indígena em plena cidade do Rio de Janeiro. Sua criação foi obra coletiva de inúmeras pessoas de diversos povos.
Este texto tem objetivo meramente figurativo.

Uma pena o Estado ter agido com tanta truculência contra nossos amigos e amigas.

Resta a pergunta: Copa para quem?

Aldeia Maracanã resiste!



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